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Martine Joste

A pianista francesa está de volta e apresentará recital eclético com a extrema vanguarda do instrumento. Dois norte-americanos e dois italianos: a invenção de John Cage (que já compôs para ela), a delicadeza de Morton Feldman, a violência de Sylvano Bussotti e o rigor de Luigi Nono.

Na FASM (Santa Marcelina, na Cardoso de Almeida), Teatro Prof. Laura Brandão, quinta-feira, dia 1, às 20h, grátis. Confira a programação e ouça o programa de rádio Paisagem, do José Augusto Mannis, que apresenta o disco The Works for Piano 6, de John Cage, pela Martine Joste.

 

                                                                “Lembro-me agora        que Feldman falou de

sombras.                    Ele disse que os           sons não eram             sons, mas sombras.

Eles são obviamente    sons; é porisso que       eles são sombras;        tudo que existe

é um eco de nada          A vida continua de     modo muito parecido    com uma peça de Morton

Feldman.”       

(Cage via Rogério Duprat e Augusto de Campos)

 

“O silêncio. É muito difícil escutar. É muito difícil escutar, no silêncio, os outros. Outros pensamentos, outros ruídos, outras sonoridades, outras idéias. (...) Em vez de escutar o silêncio, de escutar os outros, espera-se encontrar ainda uma vez a si mesmo. (...) Escutar a música. É muito difícil. Creio que hoje é um fenômeno raro. Escuta-se alguma coisa de literário, escuta-se o que foi escrito, escuta-se a si mesmo”.

 

“Infinita disponibilidade para o surpreendente, para o insólito, para colocar em discussão, ainda que na maior incerteza (certeza na incerteza), na maior verzweifelte Unruhe, inquietude desesperada (Ruhe in der verzweifelten Unruhe) – a procura infinitamente mais importante que a descoberta. Escutar! como saber escutar as pedras brancas e vermelhas de Veneza ao nascer do sol – como saber escutar o arco infinito das cores sobre a laguna ao pôr-do-sol”.

(ambos de Luigi Nono)

Escrito por paulo fernando às 19h09
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Sequenzas

E as Sequenzas continuam. (errata- a última Sequenza não é a XIII para acordeão, e sim a XIV a para violoncelo e a XIV b para contrabaixo (2002). Eu me guiei por um box que eu tenho das Sequenzas completas, mas que foi editado em 1998).

Neste domingo, músicos como Marcelo Jaffé (viola), Ayumi Shigeta (piano) e Luis Afonso Montanha (clarinete).

Os poemas estão sendo apresentados também.

 

Sequenza IV para piano (1966)

mi disegno contro i tuoi tanti specchi, mi modifico con le mie vene,

com i miei piedi: mi chiudo entro tutti i tuoi occhi

 

Sequenza V para trombone (1965)

ti dico: perché? e sono la secca smorfia di um clown

perché vuoi sapere, ti dico, perché ti dico perché?

 

Sequenza VI para viola (1967)

il mio capriccioso furore fu già la tua livida calma

la mia canzone sará il tuo silenzio lentissimo

 

Sequenza IX a para clarinete (1980)

 

se instabile e immobile, mio fragile frattale

sei tu, questa mia infranta forma che trema

 

Sequenza X para trompete e ressonância de piano (1984)

descrivi i miei confini, e stringimi in echi, in riflessi

a lungo, e disinvoltamente, diventami me, tu, per me

 

Sequenza XIV para violoncelo

(não tem no meu encarte, desculpe-me)

Escrito por paulo fernando às 19h07
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audiovisuinstitucional

encontrei o haron cohen quando fui escutar stravinsky, debussy e webern. no banheiro – onde encontro quase todo mundo.

ele convidou eu e a thais para a inauguração da exposição 100 anos da pinacoteca – o projeto da exposição é dele.

nós fomos – sem convites, mas deu certo.

assistimos à mais que chatíssima cerimônia: paulo scaff, josé aristodemo pinotti, joão batista de andrade, etc, etc – fulano representando geraldo alckmin, sicrano representando josé serra, beltrano representando a puta que pariu, e assim por diante. óbvio que nada sobre as obras expostas. como se não bastasse, a nova praga institucional: vídeos institucionais. estupidíssimos. segunda-feira, em outra palestra, adivinha: vídeos institucionais – estes da faap. deveriamos cobrar indenizações por sermos submetidos a essas coisas. sou um pouco retardado, mas nem um décimo de quanto os “produtores” de tais materiais julgam que devam ser os “expectadores”, ou “público alvo”, sei lá.

mas foi bem legal espiar a exposição e prestigiar o haron, que ficou bastante contente com a nossa presença.

 

Ezra Pound

 

Fui escutar a estréia brasileira de fragmentos da ópera Cavalcanti, de Ezra Pound (1985-1975), no Espaço Cultural CPFL, em Campinas.

Saí com a impressão de que Pound inaugurou uma nova escola de composição (de que fui um seguidor inconsciente, talvez o único, no Jaguadarte): a música medieval burlesca. Música estranha, bruta, talvez tosca, ás vezes (desculpe-me dizer, pelamordepound, Pound) um pouco chata, mas no geral bonita e interessante.

O compositor norte-americano Virgil Thomson comentou sobre a música de Pound: “Não era propriamente a música de um músico, mas talvez a mais bela música de um poeta desde Thomas Campion... e o seu som permaneceu em minha memória”.

Quanto à apresentação, o fato da orquestra de câmara não ser das mais refinadas, se encaixou bem com a excentricidade da coisa. Falha séria, acho, foi o uso ostensivo do bel-canto exagerado, que – pelo que sei sobre as concepções do poeta – vai contra as idéias musicais poundianas de submeter completamente a música ao texto. O importante é o som das palavras, o resto deve apenas realçá-las. Fusão de motz el son.

Depois do espetáculo, alguns jovens reclamaram que, nas traduções projetadas, o poema Donna Mi Priegha (muito admirado por Pound) apareceu em uma tradução mais literal, e não na do Haroldo de Campos. Eu achei melhor assim, pois no caso o mais importante (mais uma vez) é o som das palavras, as traduções servem apenas para dar o sentido geral – sem conflitar com o original cantado.

 

Guido Cavalcanti (1259-1300)

 

Donna Mi Priegha (1ª estrofe)

 

Pediu-me uma Senhora

                                 fale agora

Dum acidente

                     geralmente

                                       forte

E de tal porte

                    que é chamado Amor

 

(tradução de Haroldo de Campos)



Escrito por paulo fernando às 20h50
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