encontrei o haron cohen quando fui escutar stravinsky, debussy e webern. no banheiro – onde encontro quase todo mundo.
ele convidou eu e a thais para a inauguração da exposição 100 anos da pinacoteca – o projeto da exposição é dele.
nós fomos – sem convites, mas deu certo.
assistimos à mais que chatíssima cerimônia: paulo scaff, josé aristodemo pinotti, joão batista de andrade, etc, etc – fulano representando geraldo alckmin, sicrano representando josé serra, beltrano representando a puta que pariu, e assim por diante. óbvio que nada sobre as obras expostas. como se não bastasse, a nova praga institucional: vídeos institucionais. estupidíssimos. segunda-feira, em outra palestra, adivinha: vídeos institucionais – estes da faap. deveriamos cobrar indenizações por sermos submetidos a essas coisas. sou um pouco retardado, mas nem um décimo de quanto os “produtores” de tais materiais julgam que devam ser os “expectadores”, ou “público alvo”, sei lá.
mas foi bem legal espiar a exposição e prestigiar o haron, que ficou bastante contente com a nossa presença.
Ezra Pound
Fui escutar a estréia brasileira de fragmentos da ópera Cavalcanti, de Ezra Pound (1985-1975), no Espaço Cultural CPFL, em Campinas.
Saí com a impressão de que Pound inaugurou uma nova escola de composição (de que fui um seguidor inconsciente, talvez o único, no Jaguadarte): a música medieval burlesca. Música estranha, bruta, talvez tosca, ás vezes (desculpe-me dizer, pelamordepound, Pound) um pouco chata, mas no geral bonita e interessante.
O compositor norte-americano Virgil Thomson comentou sobre a música de Pound: “Não era propriamente a música de um músico, mas talvez a mais bela música de um poeta desde Thomas Campion... e o seu som permaneceu em minha memória”.
Quanto à apresentação, o fato da orquestra de câmara não ser das mais refinadas, se encaixou bem com a excentricidade da coisa. Falha séria, acho, foi o uso ostensivo do bel-canto exagerado, que – pelo que sei sobre as concepções do poeta – vai contra as idéias musicais poundianas de submeter completamente a música ao texto. O importante é o som das palavras, o resto deve apenas realçá-las. Fusão de motz el son.
Depois do espetáculo, alguns jovens reclamaram que, nas traduções projetadas, o poema Donna Mi Priegha (muito admirado por Pound) apareceu em uma tradução mais literal, e não na do Haroldo de Campos. Eu achei melhor assim, pois no caso o mais importante (mais uma vez) é o som das palavras, as traduções servem apenas para dar o sentido geral – sem conflitar com o original cantado.
Guido Cavalcanti (1259-1300)
Donna Mi Priegha (1ª estrofe)
Pediu-me uma Senhora
fale agora
Dum acidente
geralmente
forte
E de tal porte
que é chamado Amor
(tradução de Haroldo de Campos)