40º Festival Música Nova
O Festival Musica Nova – criado pelo compositor Gilberto Mendes em 1962 – chega à sua 40ª edição.
É o evento de música erudita contemporânea mais importante da América Latina, e, dada a escassez de oportunidades, a nossa maior oportunidade de ter acesso à música do nosso tempo. Alguns dos mais importantes compositores, músicos, grupos e orquestras de todo o mundo costumam dar as caras no Festival, e desta vez não vai ser diferente.
O grupo norueguês interdisciplinar KaG (Kunstarbeiders Gezelschap – Associação de Trabalhadores em Arte) apresentará Maulwerke – teatro musical multimídia do compositor alemão Dieter Schnebel. O KaG é formado por artistas e técnicos de diferentes áreas, que se juntam para realizar espetáculos voltados para a música. Maulwerke é uma obra de 1968 onde são exploradas as articulações vocais. Como em outros trabalhos do compositor, a influência da escola de música Darmstadt se mistura com a influência do movimento de arte interdisciplinar Fluxus. O próprio compositor está no Brasil para acompanhar a montagem (uma revisão de 2005), e participou na quinta-feira (04/08) de um debate com Gilberto Mendes e Lorenzo Mammì.
A orquestra de câmara francesa Ensemble Orchestral Contemporain realizará um concerto com obras de conterrâneos deles. Os solistas serão dois músicos excelentes: a pianista Ancuza Aprodu e o percussionista Thierry Miroglio (que, entre outras coisas, estreou a última obra composta por Iannis Xenakis). Ambos se apresentaram – como um duo – no Festival do ano passado, em um belíssimo recital no Masp. O programa da EOC terá peças fundamentais, como Derives I, de Pierre Boulez, e Octandre, do franco-americano Edgar Varèse.
A pianista Joanna MacGregor é famosa por fazer recitais que misturam música erudita de todas as épocas – medieval até contemporânea eletroacústica – com jazz e pop. No seu recital haverá Bach, Johnny Cash, William Byrd, Astor Piazzolla e, para não fugir do espírito do Festival, duas peças do gigante György Ligeti: Rainbows e Autumn in Warsaw.
Como sempre, haverá execuções e estréias de compositores brasileiros, como Edson Zampronha e Silvio Ferraz.
E, como se não fosse o suficiente, todos os concertos são de graça.
Clique aqui para ver a programação. O Festival já começou, e o concerto de hoje já é um dos mais imperdíveis (talvez o mais).
Breve aqui uma entrevista exclusiva que fiz com o Gilberto Mendes – o mais importante compositor brasileiro vivo, e fundador e diretor artístico do Festival.
Escrito por paulo fernando às 17h54
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Esperando Godot, Encontrando Pignatari e outras figuras
Está difícil escrever aqui, pois o meu HD foi para o espaço. Estou agora no computador da Thais.
No último fim de semana (ou uma versão prolongada disso – de quinta à segunda) assisti coisas muito interessantes.
Quinta e sexta, Smetak – Plásticas Sonoras.
Sábado, finalmente Repertório Beckett 3, com a Companhia Nova de Teatro Moderno. Eu me interesso bastante por Samuel Beckett, e gosto do trabalho de Lenerson Polonini e da Cia.. Infelizmente, não posso recomendar o espetáculo, pois acabou a temporada, mas já recomendo o Repertório 4. Eu não assisti ao Repertório Beckett 1, mas o 2 também foi muito bom, principalmente Not I (Eu Não), com trilha de Danilo Tomic.
No Repertório Beckett 3, foram montadas duas peças – a mais longa e a mais curta: Esperando Godot e Respiração (30s). Na mais famosa delas (de tudo de Beckett), eles superaram as expectativas que um texto assim cria. As movimentações corporais criaram um espetáculo visual de poesia pura – remetendo aos clowns do cinema mudo (Buster Keaton foi uma das maiores influências para os personagens beckettianos). Mais importante: eles conseguem atingir uma das características mais difíceis de Beckett – a peça é engraçadíssima e tristíssima ao mesmo tempo.
A trilha sonora – ou não trilha – é de Wilson Sukorski (o mesmo de Smetak – Plásticas Sonoras), e respeita um elemento chave para a estética beckettiana: o Silêncio – o silêncio do som, da imagem, do movimento da ação, etc. Respiração é o exemplo extremo.
Domingo, Sin City. Sou um grande admirador dos quadrinhos de Frank Miller, e nas cenas que já tinha assistido previamente me incomodava a ausência da radicalidade do alto contraste – pedra de toque do visual dos gibis. Se os produtores de O Poderoso Chefão não queriam permitir sombras nos olhos de Marlon Brando, imagina sumir com as caras de Bruce Willis, Jéssica Alba, Benício Del Toro, etc. Eu via que o contraste era anormalmente forte, mas ainda longe do alto contraste. Mas a solução geral do filme – variar entre o alto contraste radical e o contraste quase tradicional – funciona muito bem. Muito boa as interpretações estilizadas – não realistas – dos atores, quadrinhos total. Filme legal pacas, filme de macho – raridade em um mercado de exibição dividido entre os emasculados “filmes pipoca” e “filmes de arte”.
*Nota post commodorum- Quarta eu tive uma das experiências mais intensas e radicais que já vivi em uma sala de cinema: TETSUO IRON MAN. Invenção sem nenhum tipo de limites – formais, morais, imaginativos, o que seja. Até David Cronenberg deve sentir-se ultrajado com esta demência fílmica. Eu quase não consegui chegar até o final. Certamente fiquei com parte do cérebro (e nervos) danificados irremediavelmente. Gostaria muito de rever o filme, mas, se um dia eu tiver oportunidade, não sei se terei coragem. Ë grande poesia – mas poesia do mal. Chocante, assustador e tremendamente perturbador.
Encontrei na noite de sexta, voltando do Smetak, o Décio Pignatari de novo, exatamente no mesmo local que da outra vez. Estou cogitando se não é uma visão que só eu e a Thais temos. Na próxima vez, vou beliscá-lo. Neste período, além do poeta, encontrei uma porção de amigos: Ruggero, Oberdan, Otacílio (via telefone, ele me ligou), Marlise, Mateus e Carlos (ufa!, ainda se fazem nomes comuns) – um músico impossível, um ator (protagonista do meu O Corvo (Edgar Allan Poe)), um desenhista de quadrinhos bizarros e de terror, uma ex-professora, um designer, e um diretor de filmes de terror. É normal encontrar gente assim?
Ao acaso, quase sempre encontro conhecidos. Dos e nos mais diferentes lugares. Normalmente eu reencontro-os até uma semana depois (isso já acontece faz anos, e as vezes é até assustador). Até agora já reencontrei o Ruggero e a Marlise (e o Dennison Ramalho falou sobre o Carlos, na Sessão Dupla do Comodoro).
Escrito por paulo fernando às 17h43
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Tacet – Festival do Minuto
Um vídeo meu foi selecionado para o Festival do Minuto. Ë a terceira vez que participo do Festival.
O tema desta vez é silêncio (tacet) e o vídeo chama “tmese”. Se normalmente eu parto de elementos e recursos extremamente simples para criar linguagens barrocas (às vezes burlescas), em tmese – que dura apenas 30s (com os créditos) – a linguagem é simples ao extremo – tão simples que eu acho que vai desagradar o “público” por motivos opostos do que eu estou acostumado.
Assista, mas com um problema: por causa da compactação – imagino –, o som está mono, e o uso do estéreo é uma das coisas mais legais do vídeo (uma das únicas coisas, inclusive), que está, portanto, levemente aleijado. Clique aqui, ou aqui, e lá clique na cara da Thais.
Se quiser, assista também ao , este sim, bastante aleijado pela compactação.
Participar do Festival do Minuto é legal. Apesar de coisas sofríveis, sempre tem alguns vídeos interessantes. O maior problema é comum: as pessoas acham que humor é fácil. Fazer humor de verdade é tão complexo e difícil quanto fazer um poema de verdade. Outro problema: não basta uma câmera digital na mão e uma idéia na cabeça – Mallarmé disse que poesia não se faz com idéias, mas com palavras. Vídeos não se fazem com idéias, mas com imagens e sons. Outro problema super comum (e que é considerado virtude): vídeo não é cinema, vídeo é vídeo. Ainda mais em um minuto. Isto é básico.
End
Talvez termine agora um período muito importante da minha breve vida, onde aprendi muito, criei coisas, e conheci muito. Mas se eu tenho que desacelerar, pretendo não parar – continuar na máxima velocidade permitida (e eu sou lento), nem que prejudique a minha saúde (física e mental).
Cabe aqui um poema de Paulo Leminski (1944-1989). O curitibano é um dos meus xarás preferidos (Valéry, Klee, Picasso, ...):
quando eu tiver setenta anos
então vai acabar essa adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre-docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar essa adolescência
Escrito por paulo fernando às 17h31
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