Mesosticage - parte 1
“depois q pound morreu
o maior poeta vivo americano
talvez o maior poeta vivo
é um músico
JOHN CAGE”
(Augusto de Campos, déc. de 70)
“Estive em contato com alguns poetas e artistas anglo-americanos. Nenhum me deu esta sensação de extrema simplicidade e refinamento, humor e paixão, graça e ousadia – exceto o músico John Cage. Mas Cage é mais inteligente e complicado: um ianque que fosse também Erik Satie e um sábio oriental. O dadaísmo e Bashô. O humor de cummings se parecia com o Box (jogo que já foi de cavalheiros em certa época); o de Cage é menos direto e mais corrosivo. Não sei o que pensar de sua música (pensa-se a música?); em compensação, sei que é um dos poucos poetas, apesar de não escrever poemas, que existem hoje nos Estados Unidos. Cage, cummings...”
(Octavio Paz)
Um dos principais procedimentos poéticos de Cage (entre muitos) foi o mesóstico – de diferentes tipos, tamanhos, funções, regras estruturais, aparências, características; mas mesósticos.
Mesóstico não é acróstico.
acróstico. [Do gr. akróstichon.] S. m. Composição poética na qual o conjunto das letras iniciais dos versos compõe verticalmente uma palavra ou frase.
Lewis Carroll terminou o livro Alice Através do Espelho (onde está o poema Jabberwocky, de que ainda estamos falando, por mais que não pareça) com um acróstico:
A deslizar sereno sob o céu
Luminoso, o barco deriva na
Idílica tarde de verão, ao léu...
Crianças ali perto aninhadas,
Espertas, ouvidos atentos, esperam
Pela história que lhes será contada...
Lá no alto o céu há muito empalideceu,
Ecos declinam, lembranças perecem.
A friagem do outono, o verão varreu.
Senão que, espectral, ela segue a me obsedar,
Alice a percorrer estranhas terras
Nunca vistas por quem não sabe sonhar.
Crianças que queiram esta história ouvir,
Espertas, ouvidos curiosos e
Lúcidos, devem pertinho se reunir.
Imaginário País das Maravilhas percorrem,
Devaneando enquanto os dias passam,
Devaneando enquanto os verões morrem.
Encantadas, pela corrente se deixam levar...
Lentamente sucumbindo ao fascínio da
Lenda... Que mais é viver senão sonhar?
continua...
Escrito por paulo fernando às 04h18
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