A Decadência da Rádio Cultura FM
A Rádio Cultura FM (103.3) é a melhor rádio do mundo. Quem duvida, ouça as semelhantes do mundo, via internet, e tire suas conclusões. Mas de um tempo para cá, graças a uma nova diretoria, o nível está baixando pouco a pouco.
No início, pensei que pudesse ser implicância minha. Depois, comecei a ouvir opiniões semelhantes de todas as (poucas) pessoas que eu conheço que escutam a rádio e li alguns artigos sobre isso na internet.
Já no site da Rádio, dizem que a programação está melhor que nunca, corroborados pela opinião de supostos notáveis (não pelo conhecimento musical), e comemoram o aumento da audiência (a que preço?, ou melhor, a que ganho?).
Dou a seguir os sintomas mais evidentes do problema.
Intervalos Comerciais
A Rádio já chegou a ponto de colocar intervalos no centro de programas de 1 hora. Ou seja, se eu quiser escutar o Pianíssimo, do Gilberto Tinetti, eu tenho que escutar o Pianí-intervalocomercial-ssimo. Obras com mais de 25 min? Nem pensar. Já já, comerciais irão interromper as obras, como nos filmes na TV, ou serão narrados sobre as obras, como nos seriados da TV a cabo.
Mais preocupante: programas patrocinados por produtos. Falarei disto adiante.
“Renovação” da Programação
Eliminação de excelentes programas como, por exemplo, Bulevar Cultura e Música Impossível, e apresentadores competentes como Marta Fonterrada, Cyntia Gusmão, Dante Pignatari e Ruggero Ruschioni.
O acréscimo de programas sofríveis como, por exemplo, Cinema Falado (ofensa para quem gosta de cinema), Estação Cultura e Sábado Perfeito, e apresentadores como Gioconda Bordon, Fábio Malavoglia, além de mais um programa com Salomão Schvartzman.
As trocas do Bulevar (o maestro Lourenção tocava de Bach a Nono, de Nancarrow a Marsicano) com o Estação (que junto com o Diário da Manhã, forma o díptico para o yuppie estressado no trânsito) e da simpática Marta (saudades) com a caricatura impressionista (no pior sentido possível) Fábio, são inacreditáveis.
Mais adiante, falarei especificamente dos casos Música Impossível e Sábado Perfeito.
continua...
Escrito por paulo fernando às 02h52
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segunda parte
Sábado Perfeito
Temos aqui o cume extremo. Patrocinado por uma empresa de cosméticos que infestou a programação de comerciais – cujo nome não vou falar, pois não existe propaganda melhor do que a negativa.
Apresentado pelo Salomão “Revista Caras” Schvartzman (quem acha o apelido maldoso não conhece a figura, que acharia um elogio).
Título idiota, na esteira do Divirta-se com os Clássicos.
O objetivo é apresentar o melhor da música, dos grandes gênios, por quem mais entende do assunto. Consiste (o primeiro programa foi assim) de primeiros movimentos – sim, apenas o 1º – de Sinfonias Megapopulares, esquartejamentos semelhantes e Danúbios Azuis, antecedidos por comentários românticos bregas e extremamente fetichistas.
Em relação aos cosméticos, o slogan diz algo como: “para o homem que ousa se cuidar.” Talvez um dia eu pare de comer por causa desse tipo de atitude, mas eu parei de usar a espuma de barbear e a loção pós-barba desta marca que me ofende, supondo que sou um ouvinte estúpido (talvez seja, mas não tanto). Eu até gostava, mas prefiro empresas que ousam em coisas ousadas ou que não ousam em coisas não ousadas (Sáb. Perf.) ou que não ousam no que não é da sua conta – afinal, o que tem a ver Beethoven com hidratantes?
Música Impossível
O melhor e mais relevante programa já produzido pela emissora, até onde eu já escutei. Primeiro exterminaram a reprise, depois adiaram o horário, e, finalmente, impossibilitaram o programa.
No lugar colocaram o novo Kaleidoscópio, do talentoso compositor Almeida Prado, cujo primeiro programa foi excelente.
O que importa discutir é que um não substitui o outro. Apesar de aparentemente semelhantes, são completamente diferentes.
Almeida Prado – ao que indica o 1º programa, os próximos e o seu texto sobre – tentará apresentar aquilo que é fundamental na Música do séc. XX. Os “Clássicos” contemporâneos. A vanguarda dos livros de História, estabelecida como repertório.
O grande Ruggero abraça o risco, os outsiders, e sempre tentou trazer o que está “à margem da margem”.
Almeida Prado tocou os gigantes Varèse, Messiaen e Ligeti (uma de minhas maiores paixões); tocará nas próximas vezes Villa-Lobos, Glass, Carter, Gilberto Mendes. Provavelmente teremos adiante os geniais Webern, Berg, Stravinsky, Bartók, Berio, etc (e talvez não Boulez e Stockhausen, por divergências estéticas).
Ruggero nos trouxe Subotnick, Wolpe, Brown, o mendigo Partch, o “muito falado e pouco escutado” Schaeffer, o poeta sonoro Henri Chopin, etc.
Se são tipos diversos de repertório, as abordagens são também diversas.
R.R. fazia programas inteiros – ou séries – sobre apenas um compositor, trazendo muitas informações, e nos dando ao menos uma pequena idéia de compositores desconhecidos através de peças variadas. Apresentou, por exemplo, dois programas sobre Nancarrow (sou suspeito para falar, pois eu que pedi este) e um insano programa de seis horas com o rocambolesco Opus Clavicembalisticum, de Sorabji. Hoje isto seria impossível, e, se acontecesse, seria com os comerciais narrados por cima, de que eu já falei.
Já A.P. tenta contrastar diferentes compositores, algo como o método de Ezra Pound, sem receio de esquartejar obras ou mostrar apenas movimentos para atingir seus objetivos.
Ambos métodos são fascinantes, mas diferentes. Deveríamos ter ambos, afinal é um disparate uma rádio de música de alto repertório ter apenas uma hora por semana com a música feita a partir de 100 anos atrás.
Bem que poderiam continuar reprisando o Música Impossível em horários impróprios, como o interessante Satélite, de Regina Porto, do início da déc. de 90 e que reprisava todo fim-de-semana, às 04:00 da madrugada (agora só de sábado para domingo). Ou que passasse ao menos o comercial do M.I. – mesmo sem o programa – que já era uma interessante obra sonora por si só. Aproveitando a idéia do comercial narrado por cima, podia ser sobre o Sábado Perfeito.
Para quem nunca escutou, ou está com saudades deste já histórico programa, clique no link à direita, na pág. do blog, escrito Música Impossível, para entrar no site do Ruggero (não atualizado, pois ele não tem mais acesso) onde existem alguns programas disponíveis.
continua..
Escrito por paulo fernando às 02h47
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última parte
O Lado Bom
Ainda temos programas do mais alto padrão. Exemplos: Pianí-intervalocomercial-ssimo, Cantilena, supertônica com Arrigo Barnabé, A Escrita de Câmara, Organum Plenum, Arco em Movimento, Sopros, Kaleidoscópio, Mapa Mundi. Todos imperdíveis.
Temos o novo A Escolha é Sua, de João Carlos Martins, que – apesar de reforçar a maldição contemporânea de se escutar e discutir interpretações, ao invés da própria música – tem o seu interesse.
Finalmente podemos escutar os concertos da Osesp via rádio.
Rodolfo Konder continua lendo textos de Borges, e o novo programa-noticiário do Paulo Markun é excelente.
A Cultura continua espetacular – só não se sabe até quando. Se ela quer vulgarizar-se e idiotizar-se para ter mais audiência, ela nunca terá estas três características no nível das demais rádios – além de baixar o alto nível do seu repertório.
Isso tudo sem falar que eu acho que é uma emissora pública (se alguém souber me informar, eu agradeço). Se for, os problemas éticos são bem mais graves.
Talvez meu texto irrite alguém, mas só o escrevi por amar a emissora.
P.S.- Um sujeito chamado Julio Daio Borges escreveu alguns textos criticando a nova direção e orientação da rádio no site Digestivo Cultural. Em um deles, ele conta que, freqüentando a Sala São Paulo, escutou, “entre as escadarias, a voz cafona de Fabio Malavoglia”.
Se eu algum dia reconhecer pessoalmente esta voz, ou tiver o Salomão Schvartzman na minha frente, imediatamente aplicarei um Traps, não importa em qual dos dois. *Nota para aqueles não versados na suprema arte da Luta-Livre: Traps é aquele famoso golpe em que o lutador atinge o peito do oponente utilizando-se de ambos os pés simultaneamente. Infelizmente, eu só faria tal manobra devidamente trajado, no rigor da moda luta-livresca, em minha belíssima malha colante colorida, e a vez que fui a uma sala de concerto assim trajado, fui barrado pelo segurança.
Escrito por paulo fernando às 02h42
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Chapatim e Messiaen
O Dr. Chapatim é uma das maiores criações do inigualável Roberto Bolaños, mais conhecido como Chespirito (Shakespeare baixinho).
Em um clássico episódio, o Dr. Chapatim está louco para terminar o expediente para ir a um jogo de futebol, mas sempre que ele está se preparando para sair, surge um novo paciente.
Depois de cada paciente, Chapatim repete, como um Leitmotiv do episódio:
– E agora, vou ao futebol!
Eu não me interesso por futebol (desculpe-me por admitir), mas já estou dizendo:
– E hoje a noite, vou à Turangalîla!
Escrito por paulo fernando às 15h43
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Concerto de Música Acusmática
Além de ser um importante compositor, Flo Menezes é o principal divulgador da música eletroacústica entre nós, através de livros, palestras, CDs e festivais.
O compositor apresentará workshop e concertos – através da sua orquestra de 16 alto-falantes PUTS – com obras acusmáticas (compostas apenas para serem executadas por alto-falantes) de grandes mestres como Xenakis e Ligeti.
Como até as obras orquestrais destes gigantes quase nunca são executadas, oportunidades como esta são imperdíveis.
no SESC Vila Mariana, diariamente entre o dia 7, terça-feira, até o dia 10, sexta feira
http://www.iannis-xenakis.org/english/ http://www.braunarts.com/ligeti/main.html
Escrito por paulo fernando às 02h29
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18º Bloomsday em São Paulo
No dia 16 de junho haverá o 18º Bloomsday em São Paulo – o evento é uma celebração mundial da obra de James Joyce. Na ocasião, eu apresentarei um vídeo meu, que aspira transcriar o poema Jabberwocky, de Lewis Carroll, para linguagem audiovisual.
Mais informações em breve.
Escrito por paulo fernando às 01h51
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Osesp executa Messiaen
Messiaen é um dos compositores mais importantes para a segunda metade do séc. XX. Notável professor de composição, teve entre seus alunos Boulez e Stockhausen.
A Osesp tocará a Sinfonia Turangalîla com regência (Pascal Rophé), piano (Roger Munaro) e ondas martenot (pai dos instrumentos eletrônicos por Valérie Hart-Claverie) a cargo de grandes interpretes do compositor. Por ser de fácil assimilação, a obra é uma boa opção para quem acha impenetrável a música atual.
nos dias 02 de jun, quinta, 03 de jun, sexta, e 04 de jun, sábado, na Sala São Paulo
http://www.oliviermessiaen.org/messiaen2index.htm
Escrito por paulo fernando às 04h08
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"e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso recomeço por isso arremesso por isso teço escrever sobre escrever é o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites milumapáginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo descomêço desconheço e me teço um...
(...)
...descanto a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala"
(do formante inicial das galáxias de Haroldo de Campos)
http://www2uol.com.br/haroldodecampos
Escrito por paulo fernando às 03h06
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